terça-feira, 29 de julho de 2008

O Sapo cor-de-rosa.

O diretor de arte chegou às 10:30h. óculos escuros, cabelo molhado. A menina do atendimento, desesperada, já estava na criação cobrando os anúncios. - Pelo amor de deus! O cliente vai viajar hoje à tarde e quer ver os layouts pra poder mostrar para o diretor internacional que vai ter uma reunião com a coordenação da América Latina e eu vou me ferrar porque todo mundo tira o corpo fora! O diretor de arte não tinha ainda achado aquela sacada gráfica, entende? - Pelamordedeus! Pelamordedeus! Pelamordedeus! O diretor de arte, sem tirar os óculos nem dizer palavra, senta na frente do computador pensando: "Que saco, só um mês de prazo, o redator fez os títulos só há duas semanas, assim não dá pra trabalhar". Quinze minutos depois, os layouts estão saindo da impressora. O redator vê os anúncios e comenta: - Por que um sapo cor-de-rosa? - Sei lá, é uma imagem bonita, instigante... - diz o jovem diretor de arte. - Mas o anúncio é de eletrodoméstico. Que é que tem a ver? O diretor de arte não queria entregar que não pensou em nada e que aquele sapo era a única imagem que tinha no arquivo do computador, mas nem deu tempo de ele inventar uma justificativa. - Daquí esse troço que eu tô com pressa. No caminho do cliente, no carro, o diretor de atendimento vê pela primeira vez os anúncios para poder dizer na reunião que tinha acompanhado o processo criativo todo, inclusive direcionado a criação para não perder o foco da campanha e dar destaque ao sapo cor-de-rosa. Sapo cor-de-rosa? - Que droga é essa de sapo cor-de-rosa aqui nesse anúncio!? - Sei lá, foi a criação que fez, eu não sei de nada, só cobrei os caras. O diretor de atendimento não podia jogar fora o anúncio, era o único em que o título fazia uma vaga menção ao produto. Teve que pensar em uma saída. Chegaram ao cliente, uma imensa multinacional. Estão na sala de reunião com toda a equipe de marketing da empresa. O diretor de atendimento, uma velha raposa, apresenta o layout do sapo rosa falando da necessidade de um property para a marca e a importância do impacto que a comunicação deve ter junto às donas de casa, que uma imagem altamente diferenciada não permite a indiferença do público alvo e que um sapo, com certeza, sensibiliza a donas de casa de qualquer classe, e que o fato de ele ser rosa (uma cor altamente ligada ao universo feminino) anularia toda a imagem negativa do anúncio em questão. Seja o que Deus quiser. O diretor de marketing da multi ouviu tudo sem mudar sua expressão de jogador de pôquer. Houve aquela pausa que prenuncia hecatombes. - O que vocês acham? - perguntou o chefâo de marketing para seus comparsas. As respostas vieram pela ordem crescente na hierarquia local: - Um pouco estranho. - Bem estranho. - Estranho é apelido. - É sem dúvida a coisa mais estranha do mundo. - Uma merda. - Eu até que gostei do sapo cor-de-rosa - disse o chefão de marketing. As mudanças de opinião seguiram a ordem decrescente. - Uma merda que pode dar certo. - Sem dúvida se é a coisa mais estranha do mundo é porque tem um certo appeal racional, Algo de especial. - Especial é apelido. - Bem especial. - Ainda acho um pouco estranho - disse o mais baixo na hierarquia, que por manter sempre sua opinião foi despedido alguns meses depois. No final valeu democraticamente a lei do mais forte. E o diretor de atendimento voltou para a agência pensando por que raios o chefão do marketing gostou do sapo cor-de-rosa. "Será que a idéia é boa? Não, não, impossível sair coisa boa da criação. Por que o chefão gostou? Na verdade eu é que sou um puta vendedor. Eu sou foda." Na verdade, o chefao de marketing não sabia por que raios tinha aprovado aquele anúncio do sapo cor-de-rosa. Ele estava divagando sobre sua casa de campo, pensando como era gostosa aquela menina da agência que fala rápido, não prestou muita atenção no que o cara da agência falava. Mas, para falar tanto, ele devia estar falando coisas importantes. Não pegava bem passar por ignorante na frente de seus subalternos. E agora o chefâo de marketing está num avião, levando numa pasta branca de papel-cartão um sapo cor-de-rosa, que deve ser apresentado para um chefe que é mais chefe que ele. "Vou ter que enrolar os gringos", pensou. A reunião com o pessoal da América Latina começou com um clima tenso. Nenhum dos diretores de marketing dos vários países onde a empresa atuava tinha um trabalho decente para mostrar. Quando o diretor de marketing do Brasil mostrou o anúncio do sapo cor-de-rosa foi um alívio geral. Todo mundo começou a apoiar a idéia do brasileiro, pelo menos assim ninguém precisava justificar seu próprio fracasso. - Me gusta mucho el sapo rosado. - Sin duda tenemos un simbol. O coordenador de marketing para toda a América Latina - o big-boss de todo mundo ali - não falava bem castelhano. O big-boss dos cucarachas, como secretamente se autodenominava o coordenador de marketing para toda a América Latina, telefonou para a matriz no dia seguinte dizendo que havia unanimidade em torno de um conceito- Amazing concept- desenvolvido pelo marketing de Buenos Aires, ou será de Caracas? - I don't know, só sei que é de um lugar do Brazil. O anúncio do sapo cor-de-rosa e o big-boss dos cucarachas estavam a caminho da matriz, em Atlanta. O chefão estava tranqüilo em relação ao sapo. Todos os diretores de marketing da América Latina haviam feito reports provando a viabilidade da estranha personagem anfíbia. Que os reports foram feitos para agradar a ele, o big-boss, ninguém contou. Nos reports havia números, e números fazem até um sapo cor-de-rosa existir. O coordenador de marketing para toda a América Latina entrou às 8:00h na sala do seu chefe, que estava reunido com toda a presidência da grande empresa multinacional de eletrodomésticos. Debaixo do braço, um sapo cor-de-rosa. Reunião de portas fechadas. As 8:05h a secretária escutou alguém gritar na sala: - What a hell is that??!!?? Passaram-se seis meses. O diretor de arte chegou à 11:00h. Óculos escuros, cabelo molhado. A menina do atendimento havia deixado um grosso fichário na mesa da dupla de criação. Na capa do fichário lia-se: The Pink Frog. No fichário havia todas as normas de utilização do Pink Frog. O tipo de sapo que deve ser utilizado, qual a tonalidade do cor-de-rosa, as melhores posições em que deve ser fotografado, a proporção que deve ter o sapo, perdão, o Pink Frog, em relação ao formato do anúncio. Havia até a recomendação de que se usassem sapos vivos e que se pintasse o sapo por computador para evitar problemas com os ecologistas. O sapo foi completamente dissecado em duzentas páginas. Por conta do sapo cor-de-rosa, muita gente foi promovida, tanto no cliente quanto na agência. - Puxa que legal! Eu sempre quis ser diretora de contas e mandar nesses babacas! Todo mundo se deu bem, menos o diretor de arte. Parece que o cliente pediu a cabeça dele porque ele não seguiu as normas de aplicação do Pink Frog, e colocou em risco a seriedade do marketing do cliente.

Esse texto não é meu. Não sei de quem é. Mas explica bem porquê as empresas quebram.

Um comentário:

Anônimo disse...

Oi Cláudio,
Legal esse texto. Trabalhei três anos em uma agência, a Octopus, de Santo André. O maior cliente (quase único), na época, era a Filtros Fram. Essa história me fez relembrar alguns acontecimentos...