terça-feira, 19 de agosto de 2008

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

O Natal da Qualidade

Marta era o nome da consultora contratada pela próspera empresa de embalagens. Consultora com todos os predicativos que o cargo requer. Tailleur pastel, anglicismos gratuitos e marketês castiço.
Chegou arrasando, como de praxe. E, como era novembro, nada mais lógico que mudar, logo de cara, o Natal da empresa. Nada daquele bom e velho amigo-secreto. Nada disso. Afinal o Natal também tem que ter Qualidade. E para todos, em todos os níveis da empresa. Seria o Natal da Qualidade.
A cúpula da empresa (presidente, um diretor, um gerente, suas secretárias e um trainee, sobrinho do presidente) se reuniu na majestosa sala de reuniões. Após 30 minutos de exposição do presidente sobre seu final de semana em Angra, todos os presentes voltaram sua atenção para a consultora.

- Prezados, “we must change”, empostou a consultora.

Uma das secretárias já abria a bolsa à procura de moedas, quando Marta arrematou:

- “It’s Christmas time”, época fértil, de mudanças, de nascimento do que é novo.

Alcides, o presidente, tinha os olhos vidrados na brilhante consultora. O diretor comercial, na secretária do presidente. O gerente nacional de vendas, no relógio.

- Vamos fazer o NATAL DA QUALIDADE, falou a consultora com firmeza na voz.

Todos agora olhavam para Marta, com cara de Roberto Avalone: interrogação.

- Nada de sorteios prévios. Nada de cartas marcadas. O Natal da Qualidade será diferente: cada um compra um presente DE QUALIDADE, algo que deve servir a qualquer um, do boy ao CEO. E só no dia da festa o sorteio dos papeizinhos será feito. That’s it.

Todos agora se entreolhavam, pasmos. O trainee riu bem alto, pensando tratar de uma brincadeira. As secretárias sorriram com compostura. O gerente de vendas gargalhou e deixou escapar um “que absurdo”. Enquanto o diretor comercial murmurava um “totalmente nonsense” (ele gostava muito do termo).

O presidente, Sr. Alcides, não se fez de rogado:

- A idéia é boa.

- Pode funcionar, soltou o diretor.

- É original, disse o gerente.

- Divertido, sorriram as secretárias.

- Bom, pelo menos vou ganhar algo que preste, pensou o trainee.


Isto posto, caixas acrílicas foram instaladas pela empresa inteira. Caixas para receber os bilhetinhos de amigo-secreto. Claro. Afinal, não é porque as pessoas não sabiam quem tirariam no sorteio, que a razão de ser de todo amigo-secreto iria cair por terra. Dona Marta cuidou para que todos escrevessem para todos. Seria uma forma pertinente de melhorar a comunicação interna. Além disso, os bilhetinhos serviriam como uma “research tool”, para a definição do presente que agradaria a maioria das pessoas da empresa. Bastava para isso que todos escrevessem para todos. E, depois, que tabulassem as respostas recebidas.
Uma empresa que quer se tornar grande e importante deve pensar como uma multinacional. Esse era o pensamento da consultora, propagado aos quatro cantos, sempre que possível. Como uma das coisas que as multinacionais mais gostam é padronização. (sim, policies, manuais de identidade visual, guias e mais guias), o Natal da Qualidade também teve o seu. O Manual de Comunicação Festivo-Natalina. Ali, tudo estava previsto. A fonte, o espaçamento, o cabeçalho. O Roda-pé. E continha até um mini manual de redação e estilo.
Ao final de 2 meses de trabalho da consultora, os resultados saltavam aos olhos. As pessoas se comunicavam como nunca. E com qualidade. Os mais aplicados criavam tabelas de excel para tabular as respostas dos bilhetes para chegar ao melhor presente. Alguns produziam gráficos coloridos.
Alcides, agora CEO (presidente é um cargo do passado) estava satisfeitíssimo. A “Qualidade” podia ser sentida em todos os níveis da empresa.
É claro que a produtividade caiu um pouco. Que o consumo de papel tenha aumentado. E que, portanto, a lucratividade tenha sido levemente prejudicada. Mas, tudo tem o seu preço. E a “Qualidade” vale o que custa. Imagine então, um Natal da Qualidade.